UM POUCO SOBRE A CIDADE VIVA COMO ESPAÇO DE INVENÇÃO...  

 

As cidades virtuais – estando propostas no âmbito das tecnologias digitais (mas não excluindo cidades com materiais e suportes convencionais concretos) - supõem uma construção cooperativa, em tempo real, tanto síncrono quanto assíncrono, pelos vários grupos de crianças. E’, portanto, de se esperar que precisem discutir regras de construção, desde a definição do terreno, a aprovação de um plano diretor em função do próprio terreno, a distribuição de lotes para a construção de casas e prédios, até a definição de uma legislação de preservação ambiental, envolvendo a organização social, política e jurídica da cidade, a memória cultural-histórica, a posição econômico-geográfica relativa (na região, no país e no plano mundial) e o estabelecimento de contratos sociais coordenando as relações de sociabilidade entre os cidadãos, ou seja, entre elas as crianças.

Essas combinações, definições e determinações conjuntas requerem uma organização cooperativa que pode se realizar em dois níveis: (i) na sala de aula, presencialmente, entre os alunos de uma mesma turma, o que já vem sendo feito; (ii) no ambiente virtual, pela via da interação no forchat usando a plataforma AVENCCA[1], entre as turmas, o que começa a ser implementado. As discussões e combinações podem contar (e contam sempre) com a participação das professoras, como mais uma voz a contribuir para os acertos de conjunto.

A busca de informações e de outros elementos para subsidiar as construções nos variados níveis de interesse das crianças (da infraestrutura urbana, da estrutura organizacional propriamente dita e suas relações com o ambiente natural-social, urbano-rural, histórico-cultural...) já vem sendo dinamizada nas mais diversas modalidades, embora ainda com algum vagar. De qualquer maneira, e em que pese as limitações, as crianças já começam a participar ativamente, junto com as professoras, na definição das diferentes possibilidades de busca – visitas, saídas a campo, entrevistas com pessoas da família, do bairro e da vida pública na cidade, pesquisa em fontes documentais, vídeos, filmes, músicas, biblioteca virtual...

Os registros seguem ao sabor da criatividade das crianças, especialmente na forma de apontamentos em blocos de notas, fotografias e coleção de fragmentos de materiais, ou exposição de objetos e relíquias.

Abrindo um parêntese, cabe lembrar que este e’ um projeto-piloto em que pesquisadores, professoras e crianças encontram-se envolvidos na invenção de caminhos possíveis, precisando também conquistar a confiança e a anuência de pais, direção de escola e secretaria municipal de educação, o que pode não se dar, sempre, com a presteza esperada. De outro lado, uma mudança paradigmática deslocando abruptamente o foco de uma perspectiva sobre o ensino para uma perspectiva sobre a aprendizagem, não deixa de enfrentar alguns sérios desafios, na medida em que tal mudança precisa se fazer inserida no interior dos já considerados dispositivos de regulação e normatização, em meio a opiniões e crenças do senso comum – e isso, tanto no que se refere ao âmbito da ação institucional, quanto no que concerne ao uso discursivo da linguagem; de modo que todo o movimento de mudança está sujeito, o tempo todo, às armadilhas dos processos normatizadores característicos dos dispositivos institucionais e discursivos em funcionamento. O processo de mudança é, por isso mesmo, lento, exigindo consistência teórica e vigilância metodológica, da parte do grupo de professoras, o que só pode ser obtido à custa de dedicação e de estudo compartilhado, fazendo trabalhar, pelos processos de dispersão (mais ou menos conscientes) os deslocamentos de perspectiva, uma vez que concordamos de que não há, no interior de qualquer dispositivo, institucional ou discursivo, uma identificação plenamente bem sucedida.

Fechando o parêntese e voltando à narrativa, falta colocar que a produção das crianças com base nos resultados das buscas pode se expressar pela via das diferentes tecnologias convencionais e/ou digitais disponíveis, através de inúmeros e variados modos de composição, num plano de expressão artística; ou mediante descrições e narrativas erigidas sobre um plano de referência determinado, nos moldes dos relatórios técnico-científicos, implicando discussão de resultados; ou ainda, num plano de imanência do pensamento, pelo exercício de construção conceitual com desdobramentos sobre os modos de existência enquanto balizados por uma (est)ética de cuidado com a vida, sem maiores incentivos e apelos a uma ordem transcendente superior ou a outros vínculos de natureza heteronômica. [2]

O objetivo e’ favorecer, de um lado, a produção de textos, não apenas verbais escritos, mas multimidiáticos, através da produção de páginas-web suportadas pela plataforma AVENCCA e postadas na biblioteca virtual X-Teca que, assim alimentada, deverá crescer como um organismo vivo em função da contribuição dos seus associados. Mas, para além do suporte eletrônico, e mais que isso, a produção pode e deve se expressar simultaneamente pela via também de outros suportes – maquetes com miscelânea de materiais trazidos pelas próprias crianças, blocos de construção, mapas, desenhos, pinturas, esculturas, jornal escrito ou falado, apresentações expositivas ao vivo, demonstrações de experimentos, sons musicais, poemas, dramatizações... Enfim, o que a imaginação sugerir... E tudo isso, mesmo quando já estiver disponível o sistema de programação modular para editar por simulação a cidade digital (o que ainda não e’ o caso), uma vez que tal cidade irá exigir, para a sua construção, a construção correspondente de conhecimento específico, bem como a potencialização de outros saberes.

 


Notas:

[1] AVENCCA terá acesso aos 3 níveis de ensino (acesso com interfeces amigáveis)

Personalização especial para o Projeto CIVITAS

[2] Deleuze e Guattari (1997) propõem três modos de pensamento – o da arte, o da filosofia e o da ciência – que se erigem respectivamente sobre planos de composição estética, planos de imanência do pensamento e planos de referência do conhecimento.

 

 

Dispositivos de Regulação e Normatização

Veja as diferentes possibilidades. . .

 

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