UM POUCO DAS NOSSAS MOTIVAÇÕES TEÓRICAS...  

 

O projeto, na confecção, teve sua referência articulada às teorias da complexidade, em especial Piaget; à filosofia da linguagem tal como proposta por Bakhtin; e à filosofia da diferença como exposta em Deleuze e Guattari. Em especial, esta apresentação busca nos últimos autores a inspiração maior para caracterizar as experimentações em andamento, no que é ajudada, em alguns momentos, pela Análise do Discurso francesa, fase 3 – AD3 de Pêcheux.

Concentrando o foco sobre a idéia de cidade, vemo-la, de um lado (e na esteira de Deleuze e Guattari[8]), como uma mistura de corpos e vividos, encharcados de afecções e percepções, e, ao mesmo tempo, refém do senso comum – crenças, opiniões e clichês -  que naturaliza o vivido; e refém de informações encapsuladas genéricas, fragmentadas e descontextualizadas, abrindo caminho para fazer funcionar, pela via do hábito e dos modelos de recognição, os inúmeros dispositivos de reprodução: palavras de ordem geradas a partir dos conteúdos da grade curricular, e também os demais dispositivos escolares e sócio-culturais ativados ...

Mas de outro lado, esta mesma característica de mistura de corpos e vividos aponta para a cidade como um catalisador em potencial dos modos de ser-sentir, de conhecer, de conceber-fabricar, abrindo para as possibilidades do pensamento como heterogênese; nesse sentido, viver-sentir-conhecer-fabricar a cidade estaria produzindo linhas de subjetividade abertas à hibridação fazendo deslizar de sensações, para relações e variações conceituais, ou vice-versa.

A cidade como uma espécie de ponto intensivo, momentâneo e fugaz, abriria à captura, sempre provisória, de forças e fluxos, durações e velocidades, formas e limites - corporais, em movimento, misturados -, potencializando efeitos de sentido – incorporais – que aí encontrariam, obrigatoriamente, pela via do compartilhamento no coletivo, condições de passagem para o nível da expressão. Supõe-se, neste caso, uma emergência de processos de subjetivação muito particulares, incitando a um transbordamento do sentido-pensamento constituído no encontro com a cidade, verdadeiro acontecimento em busca de expressão, mas instigando também à interpretação pelo retorno sobre si com tomada de posição, e à explicação adensada por processos de objetivação do pensamento.

A cidade pode ser definida como coexistência: coexiste com a casa, o corpo, o micro e o macrocosmo. E se e’ feita de afecções e percepções, mesmo que um tanto desordenadas, ela também é tentativamente regulada, disciplinada, normatizada, controlada pelas opiniões, pelas palavras de ordem, pelos dispositivos reguladores, normativos. É preciso que a cidade seja problematizada, problematizada na instância do coletivo, desafiando o grupo ao traçado de planos, planos que então, de um lado, constituiriam a condição de passagem de percepções e afecções subjetivas e indiscerníveis ao nível de expressão do pensamento; mas também, de outro lado, planos produzindo, a um só e mesmo tempo, linhas de fuga com novas possibilidades de territorialização, desafiando as linhas duras e sedimentadas no interior dos dispositivos em jogo. Planos múltiplos, que tendo a cidade como suporte, dariam sustentação a experimentações desdobradas em, pelo menos, três aspectos, dando vazão (embora de maneira ainda muito tímida e incipiente) a sensações, relações, coordenações e distinções, enquanto efeitos de sentido objetivados: são experimentações, que pudemos identificar como sendo de ordem estético-sensível, características da arte, incitando o sentir naquilo que vibra e ressoa; experimentações de ordem funcional, próprias ao conhecer científico, exercitando limites, relações e coordenações; experimentações de ordem conceptual, catalisando a construção do conceito complexo, enquanto um conjunto de variações de sentido, não separáveis umas das outras: sentido como efeito das variações de contexto (e este por sua vez mistura, sempre outra, de corpos e vividos), abrindo fendas no conceito cristalizado e fechado, refém do senso comum, das crenças, das opiniões, da informação encapsulada, das normatizações homogeneizantes. 

Na continuidade, a cidade traçada em múltiplos planos insinua-se crescentemente polissêmica e multivocal, abrigando uma multiplicidade de universos de sentidos: no entremeio dialógico desses universos em movimento, sentidos descolam-se dos corpos e vividos, deslizando de seus universos de origem e fecundando-se mutuamente, engendrando os próprios planos sobre os quais se organizam as experimentações.

E’ então, de cada vez, em cada “pequeno lugar de encontro”[9] entre universos de sentido, em que sentidos se confrontam ou se entrelaçam... que a mim parece que emerge um mínimo espaço intervalar entre um sentido, e outro, e mais outro: um mínimo espaço abrindo uma espera no tempo, diminuta bifurcação em forma de rizoma, que produz uma escolha!  É com estes frágeis hiatos bifurcantes – esperas no tempo produzindo escolhas, delicadas criações, erigidas sobre planos de conhecimento referencial, construção conceitual e composição estética -, que podemos contar para fender o círculo fechado das opiniões e das palavras de ordem, dos dispositivos a serviço da recognição, da regulação, do controle, em que pese sabermos que, mesmo então, nesses hiatos, uma bifurcação pode escolher justamente o sentido do senso comum.

De maneira que não há trégua nem para pesquisadores, nem para professores, nem mesmo para as crianças, quando se trata, nestas diminutas, mas múltiplas esperas no tempo, de explorar a produção de escolhas, estendendo-as o quanto possível, numa dimensão est(ética) de cuidado com o sentido, de cuidado com a vida!  

 

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